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Entre Laços & Ausências | Angela Mazzotti Mestriner

Carga mental e emocional

Carga mental e emocional: quando chegamos ao limite?

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Carga mental e emocional

Carga mental e emocional: quando chegamos ao limite? | Psicanalista – Psicóloga Angela Mazzotti Mestriner

Quem nunca escutou que tal pessoa está "dando um chilique", "agindo como louca", "estourando por nada"?

Uma daquelas reações que parecem ter sido “do nada”. Que, para quem está à volta, soam desproporcionais.

Essas reações carregam uma carga mental e emocional que nem sempre quem está de fora consegue ver.

Uma pequena situação pode ser apenas a última de uma longa sequência de acontecimentos, exigências, preocupações, renúncias e sentimentos que foram sendo acumulados e manejados ao longo do tempo, em meio à exaustão emocional.

É claro que nem toda reação intensa pode ser explicada simplesmente pelo acúmulo. Cada história é singular e merece ser compreendida em seu contexto.

O caminho do “só”, “já que” até o “até que”:

Pois bem, aqui proponho que possamos pensar nessa medida do sofrimento do outro, no caminho do “só” e do “já que” até chegar ao “até que”.

É só mais um projeto.

É só até terminar de pagar a casa.

É só o banho das crianças.

Já que aguentei até aqui, não vou desistir agora.

Até que, “do nada”, é impossível seguir.

Automaticamente vamos nos acostumando a carregar mais uma coisa, depois outra. Cedemos, adiamos decisões, damos um gás a mais, na expectativa de que é só desta vez. Assim a exaustão emocional vai se construindo.

Concordo, é inteligente escolher as batalhas que vamos comprar, entender que algumas coisas realmente não valem o nosso esforço e saber deixar para lá.

Mas muitas vezes não é bem isso que está acontecendo.

Corremos o risco de deixar para lá o que realmente importa.

Se as borboletas no estômago nos fazem flutuar, os sapos na garganta nos levam a pular de um desconforto ao outro, dando um jeitinho, encontrando uma forma de seguir.

Até que já não seja possível.

Até que a carga mental e emocional fique pesada demais.

Quando a concessão deixa de ser recíproca

Nas interações humanas, a concessão é necessária para que as coisas funcionem. O problema está quando essa via é de mão única.

Não raro a pessoa que é pega de surpresa com um rompimento de uma relação, seja de trabalho, amizade ou até amorosa, se beneficiava, ainda que de maneira pouco consciente, da passividade do outro, da aceitação de determinadas coisas.

Quando os limites se colocam, a surpresa aparece.

Para algumas pessoas é difícil comunicar o que está se passando, de forma que o outro pode genuinamente não ter ideia do custo emocional que tudo aquilo vem gerando. Há uma esperança genuína de que o outro vai se dar conta de que está emocionalmente pesado para mim. Parte da carga mental está justamente naquilo que é invisível aos olhos de quem está de fora.

Isso não significa que toda reação intensa seja necessariamente justa ou que todo limite tenha sido comunicado adequadamente. Significa apenas que, para compreender uma reação, precisamos considerar também aquilo que a antecedeu.

A última palha: quando a carga mental e emocional chega ao limite

Há uma expressão em inglês que diz:

The straw that broke the camel´s back.

A palha que quebrou as costas do camelo.

Em português, temos uma expressão equivalente: a gota d’água.

Essa imagem me fez pensar no quanto as pernas trêmulas do camelo passam despercebidas até que ele desabe por completo.

A expressão fala exatamente sobre a última palha que chega quando tudo já está no seu limite.

Vista de fora do contexto, a reação, que até então vinha sendo manejada no limite, soa desproporcional.

Mas o que aconteceu antes também faz parte dessa história. Fica o questionamento:

O que já vinha sendo sustentado antes daquela última palha?

Carga mental e emocional: o peso que nem sempre aparece

A carga mental e emocional nem sempre é percebida enquanto estamos ocupados demais tentando dar conta dela. Até que uma última carga, aparentemente pequena, faz transbordar aquilo que vinha sendo sustentado com um alto custo há algum tempo. A exaustão parece ter surgido do nada.

Quantas vezes vamos acumulando mais e mais palhas, sem perceber que a carga está no limite?

Às vezes, só percebemos o peso quando já não conseguimos carregá-lo da mesma maneira.

Olhar para o que veio antes da “gota d’água”

Não é raro que a busca por serviços de saúde mental aconteça depois da última palha.

Na clínica, olhar para aquilo que antecede a “gota d’água” é  parte do trabalho: não apenas o que aconteceu naquele momento, mas a história que foi se construindo até ele.

Olhar também para as palhas que vieram antes não significa procurar culpados ou justificar qualquer reação. Significa tentar compreender o que foi sendo vivido, sustentado, silenciado ou negociado ao longo do caminho.

Perceber o peso da própria carga antes do desabamento pode abrir espaço para fazer perguntas que, no limite, já não conseguimos formular.

Você consegue reconhecer o peso da sua carga mental?

Se você tem sentido que as palhas estão se acumulando, que as suas pernas estão trêmulas, talvez esse também seja um momento de olhar para elas. Aprender a comunicar os próprios limites, compreender o que se deve ou não tolerar é um caminho que se constrói.

Na psicanálise, esse olhar pode abrir espaço para compreender as cargas, inclusive aquelas que nem sempre conseguimos reconhecer como nossas: o que estamos sustentando, o que estamos deixando para lá e o que, nesse movimento, talvez estejamos deixando de lado junto com elas.

 

*Psicóloga CRP 07/15.556 (Universidade de Caxias do Sul),Psicanalista (Instituição Psicanalítica Constructo), Associado EfetivoInstituição Psicanalítica Constructo, Especialista em Psicologia Clínica –Abordagem Psicanalítica do Sujeito Contemporâneo (Universidade de Caxias doSul), Formação em Psicologia Intercultural na Prática Clínica para Brasileirosno Exterior (FaCiência – Psi Terapia no Exterior). Autora do capítuloIsolamento social e solidão no processo migratório em Mentes Imigrantes.

WhatsApp:+55 54 999 32 18 54 -  wa.link/3u92yq



Artigo publicado originalmente em https://www.angelapsi.com.br/post/carga-mental-e-emocional-quando-chegamos-ao-limite



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