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Identidade & Pertencimento | Margery Adesina Pimentel

O preço que a saudade cobra

O preço que a saudade cobra

Imagem: gerada por IA (OpenAI).
O preço que a saudade cobra Celebrando um aniversário por telefone

Em algum momento, quase todo brasileiro que mora fora recebe uma mensagem no grupo da família: a avó vai fazer oitenta anos, o pai vai passar por uma cirurgia, a sobrinha nasceu, o tio não está bem. A resposta, muitas vezes, é acompanhar tudo pela tela do celular, em um horário que nem sempre combina com o fuso de quem está lá. E saber que, mais uma vez, não vai dar para estar no quarto do hospital ou sentado à mesa no almoço de aniversário.

É um tipo de perda difícil de nomear. Não há uma ausência única e definitiva, mas várias ausências pequenas, que vão se acumulando ao longo dos anos. Uma de cada vez, sem data para acabar. Como a vida continua dos dois lados, essa falta nem sempre é reconhecida como algo que merece luto ou apoio. Muitas vezes, fica guardada para depois.

A culpa também aparece nesse cenário. Não só por perder momentos importantes, mas por lembrar que morar fora foi uma escolha. Uma escolha pensada, que trouxe coisas boas para quem foi e para a própria família, mas também criou distância dos pais e dos irmãos. Ganhar uma vida nova e estar menos presente na vida de quem ficou acontecem ao mesmo tempo. E lidar com esses sentimentos, principalmente quando os pais envelhecem, pode ser mais difícil do que a gente costuma dizer.

As ligações e as mensagens ajudam a acompanhar a vida de quem ficou. Mas não substituem estar ali quando alguém precisa de ajuda, numa consulta ou mesmo durante um almoço em família. Ver irmãos ou amigos no Brasil ao lado dos pais em datas importantes também pode aumentar a culpa, mesmo quando a decisão de morar fora continua fazendo sentido.

Às vezes, essa culpa vem acompanhada de uma expectativa da própria família. Alguém acaba sendo visto como responsável por cuidar e estar disponível, mesmo à distância. Muitas vezes, é sempre a mesma pessoa, enquanto os outros seguem suas vidas sem a mesma cobrança. A pessoa pode sentir que está falhando em uma função que nunca escolheu, além de lidar com a própria saudade.

O orgulho pela vida construída fora e a culpa por não estar perto podem aparecer juntos. Talvez o difícil seja reconhecer que os dois sentimentos têm lugar, sem precisar decidir qual deles é o verdadeiro. Em muitos momentos, morar longe também é aprender a conviver com essa mistura.

Take care,

Margery



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