Raizes em Movimento | Juliana Silva
Raízes em Movimento: quando migrar transforma a família inteira
A migração atravessa a família inteira.Raízesem Movimento: quando migrar transforma a família inteira
Quando umafamília decide migrar, é comum que grande parte da preparação esteja voltadapara aquilo que precisa ser organizado: documentos, moradia, trabalho, escola,idioma, dinheiro, passagens, malas. É compreensível. Há muitas coisas práticaspara resolver.
Mas existeuma parte da imigração para a qual ninguém consegue se preparar completamente: apessoa e a família que vão existir depois da mudança não serão exatamente asmesmas que embarcaram.
Migrar não significa apenas aprender a viver em um novo país. Significa, muitas vezes,reconstruir referências, relações, papéis e maneiras de compreender a si mesmoe ao mundo. E essa transformação não acontece somente com quem decidiu migrar.Ela atravessa a família inteira.
Quandoos pais também precisam se reencontrar
Na práticaclínica com famílias imigrantes, encontro com frequência pais que chegaram aonovo país sabendo quem eram, ou pelo menos tendo uma ideia bastante construídasobre isso, e que, depois da mudança, começaram a se perguntar novamente.
E agora,como vai ser a minha vida aqui?” “Será que eu ainda vou conseguir trabalhar como que eu fazia antes?” “Como vou fazer novos amigos? Quem vai estar por pertoquando eu precisar?” “Será que eu estou educando meu filho da melhor forma paraesse lugar?” “ Como eu faço para ensinar aquilo que é importante para mim em meio atantas coisas que ainda desconheço?
A migração pode mexer com diferentes partes da identidade ao mesmo tempo. A pessoa podecontinuar sendo a mesma, mas o contexto ao seu redor mudou. E, quando ocontexto muda, algumas referências que antes pareciam naturais deixam defuncionar da mesma maneira. Isso também acontece com a parentalidade.

A maneiracomo fomos educados costuma se tornar uma espécie de referência silenciosa paraa forma como educamos nossos filhos. Muitas vezes, nem percebemos que estamosreproduzindo determinadas práticas até encontrarmos uma situação em que elas jánão parecem funcionar como antes.
Quando afamília migra, os pais passam a educar os filhos enquanto também aprendem aviver em uma nova sociedade. Eles precisam compreender novas regras,expectativas escolares, formas de comunicação, concepções sobre autonomia,limites e relacionamento entre adultos e crianças.
Ao mesmotempo, carregam consigo aquilo que aprenderam sobre ser pai ou mãe, seusvalores, sua história familiar e aquilo que desejam transmitir aos filhos. Énesse encontro que a parentalidade também entra em movimento.
E osfilhos?

Existeainda uma parte dessa transformação que pode ser difícil para os paisperceberem: os filhos também estão construindo sua identidade em um contextodiferente daquele em que seus pais cresceram.
Uma criançabrasileira que cresce em outro país pode continuar tendo o português em casa,comer comida brasileira, ouvir histórias da família, visitar o Brasil e mantervínculos com avós e parentes. Tudo isso pode ser muito importante.
Mas elatambém vai construir suas referências a partir da escola que frequenta, dasamizades que estabelece, da língua que utiliza, das experiências que vive e dasociedade em que está crescendo. Ela não está deixando de ser brasileira. Estáconstruindo quem é a partir de uma experiência que inclui mais de um lugar. Eisso pode trazer desafios para toda a família.
Os paispodem perceber que algumas escolhas, comportamentos ou formas de pensar dosfilhos são diferentes daquilo que conheceram na própria infância. Podem surgirperguntas como: “Como eu ensino aquilo que é importante para mim em meio atantas coisas que ainda desconheço?” ou “Como preservo nossas raízes semimpedir que meu filho construa a própria história?”
Talvez sejajustamente aí que esteja uma das partes mais importantes da experiência decriar filhos fora do país de origem: entender que a família inteira estáaprendendo e se transformando ao mesmo tempo.
Os pais nãoprecisam deixar para trás tudo aquilo que são, assim como os filhos nãoprecisam escolher entre uma cultura e outra. Existe um caminho de construção,negociação e descoberta.
É sobreesse movimento que nasce Raízes em Movimento. Nesta coluna, vamosconversar sobre situações que fazem parte da vida de famílias que vivem entreculturas, trazendo reflexões e estratégias que possam ajudar pais e filhos acompreender melhor as mudanças que estão vivendo e a encontrar formas possíveisde atravessá-las.
Porquemigrar não muda apenas o lugar onde uma família vive. Muda também a maneiracomo ela se relaciona, se reconhece e constrói sua história.




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