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Identidade & Pertencimento | Margery Adesina Pimentel

Na mala que ninguém vê, também cabem os jeitos que a gente aprende pelo caminho.

O que a gente carrega sem saber quando muda de país.

Elaborado por IA
Na mala que ninguém vê, também cabem os jeitos que a gente aprende pelo caminho. Os manuais e os jeitos que aprendemos pelo caminho

Quando a gente se prepara para morar fora, pensa muito no que vai levar na mala. Separa documento, escolhe roupa pensando no clima, decide se cabe a panela de pressão ou se vai ter que comprar outra lá. O que ninguém avisa é que existe uma segunda mala, dessas que não passam pela esteira do aeroporto, e que a gente carrega sem nem perceber.Essa mala tem o jeito como cumprimentamos as pessoas, a distância que achamos normal manter numa conversa, a hora que consideramos razoável para chegar num jantar, o volume da nossa voz quando estamos felizes ou irritados. Tem também a ideia de que reclamar do preço na feira faz parte da negociação, ou de que perguntar "e aí, quando você vem almoçar lá em casa" é um convite de verdade e não só educação. No Brasil, isso tudo funciona porque a maioria das pessoas ao redor entende as mesmas regras não escritas. Lá fora, essas regras mudam, e a gente só descobre isso quando alguém estranha.Foi o que aconteceu comigo quando percebi que dar um abraço apertado ou tocar no braço de alguém no meio de uma conversa podia deixar a pessoa desconfortável, ali onde eu morava. Não porque eu estivesse fazendo nada de errado, mas porque o que para mim era carinho, para o outro podia ser invasão. E o inverso também acontece. Tem gente que acha o vizinho americano frio porque ele não pergunta como está a família, sem saber que ali perguntar demais da vida do outro é visto como intromissão.O curioso é que a gente costuma perceber essas diferenças só quando elas batem de frente com alguma coisa. Você marca de se encontrar "lá pelas sete, sete e pouco", e a pessoa aparece às sete em ponto, achando estranho você ainda estar se arrumando. Ou você espera alguém convidar de novo, com mais insistência, antes de aceitar de verdade, e a pessoa nunca convida uma segunda vez, porque no lugar dela quem quer ir, vai da primeira vez que é chamado. Nenhum dos dois lados está errado, cada um cresceu aprendendo um jeito diferente de fazer as coisas, e o problema é que ninguém explica isso antes da gente chegar.Isso cansa mais do que parece, porque a gente passa a prestar atenção em coisas que antes eram automáticas: como cumprimentar, o quanto se pode insistir, se aquele silêncio depois de uma piada significa que ela não fez graça ou que a pessoa só está processando o que você disse. Não é falta de adaptação nem sensibilidade demais. É que o corpo e a cabeça estão fazendo um esforço extra o tempo todo, mesmo em situações banais, e ninguém percebe esse esforço de fora.Com o tempo, a maioria de nós vai aprendendo as regras novas sem abandonar as antigas. Passa a saber quando pode chegar atrasado e quando não pode, quando um abraço é bem-vindo e quando é melhor um aceno. Isso não significa perder quem você era antes. Significa que agora você tem dois jeitos de fazer a mesma coisa, e sabe qual usar dependendo de onde está.



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