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Entre Laços & Ausências

Luto: aceitação e enfrentamento – um processo que merece tempo e escuta

Luto e suas fases

Imagem: Freepik
Luto: aceitação e enfrentamento – um processo que merece tempo e escuta

Luto: aceitação e enfrentamento – um processo que merece tempo e escuta


                             

Angela MazzottiMestriner

Psicanalista – Psicóloga Intercultural*

Em “Luto e Melancolia” (1917), Freud diferencia o luto como reação natural à perda e o luto que se torna patológico ou evolui para melancolia. No luto, há um trabalho psíquico para desapegar-se do objeto perdido; na melancolia, o ego mesmo se empobrece, com intensa autocrítica, culpa e impossibilidade de reinvestir na vida.

O luto é um processo natural frente a perdas importantes que enfrentamos na vida — a morte de alguém querido, o fim de um relacionamento, a perda de um animal de estimação, do emprego, de um projeto ou até da idealização sobre o outro (“o outro não é como eu imaginava”).

O que importa é o que a perda representa para cada sujeito.

Vivemos numa sociedade que não tolera o sofrimento: espera-se superação rápida, “follow” na vida, sem pausas. A tristeza incomoda quem está perto, e o luto acaba atropelado em vez de elaborado. Comentários como “era só um bichinho”, “trabalho você arruma outro”, “Deus sabe o que faz”, “vai ser melhor assim” ou “vai passar logo” muitas vezes vêm de boa intenção, mas acabam invalidando a dor — revelam a impotência e a dificuldade de quem fala em suportar o vazio do outro. Há uma demanda interna das pessoas em falar algo que vá resolver aquele sentimento e que tudo vai ficar bem. A intenção pode até ser boa, mas o efeito acaba sendo inverso: mais dor e solidão, uma sensação de que “ninguém entende o que estou passando”. Spoiler: nenhuma frase resolve a dor. O que ajuda é presença e validação.

Respeite o seu tempo.

Está tudo bem em não estar bem. Por um período, inclusive, nem tem como estar bem. Vivenciar a dor da perda é necessário para poder seguir em frente, no seu tempo. Não existe um botão de atualizar onde tudo rapidamente se resolve e pronto.

Permitir-se sentir, chorar, recolher-se, dar tempo ao tempo é saudável. É assim que a ferida pode cicatrizar de verdade. Quando negamos ou aceleramos, as dores não elaboradas ficam ali, prontas para se reabrir frente a novas perdas ou desafios.

O trabalho do luto

Em psicanálise, falamos em trabalho do luto porque ele dá trabalho mesmo: reencontrar memórias, ressignificar o ocorrido, criar um espaço psíquico para o vazio deixado — e, aos poucos, autorizar-se a voltar a investir na vida, mesmo com a ausência. Um trabalho de tornar essa ausência possível de conviver.

Fases do luto

As fases clássicas do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação — modelo de Kübler-Ross) não acontecem de forma linear nem com prazo fixo. Cada pessoa atravessa no seu ritmo, podendo voltar a fases anteriores. Indicativos de que o luto pode estar se tornando patológico (ou melancólico) incluem: perda de si mesmo junto com o objeto perdido, culpa excessiva, desvalorização profunda, incapacidade prolongada de reinvestir afetos e prazer na vida. Algo dentro do sujeito se quebra junto com essa perda, deixando uma impossibilidade de seguir em frente.

Luto nos processos migratórios

Mesmo quando a mudança de país é uma escolha desejada, o luto do que ficou para trás acompanha. Perde-se rede de afetos, referências culturais, cheiros, sabores, sotaques, a sensação de pertencimento.

Na mudança para o exterior é muito comum deparar-se com esse sentimento e com a culpa e a cobrança (interna e externa) por sentir isso. Surge a culpa: “Como assim não estou feliz? Não era o que eu queria?” Ou a cobrança externa: “Você que escolheu ir!”

Reconhecer essas perdas (geográficas, simbólicas, identitárias) sem julgamento é o primeiro passo. Elaborar o luto migratório permite apropriar-se do que se ganha no novo lugar, sem precisar apagar o que ficou para trás.

Seguir em frente...

A culpa de estar vivendo algo novo sem aqueles que nos cercam (seja pela ausência geográfica temporária ou por não estarem mais aqui conosco) pode ser um grande desafio. A terapia psicanalítica pode ajudar exatamente nisso: dar espaço para essas dores invisíveis, para a saudade que não passa e para construir uma nova forma de habitar o mundo.

Se você está atravessando um luto — seja pela perda de alguém querido, pelo fim de um ciclo, pela migração ou por qualquer ausência que pesa —, saiba que não precisa atravessar sozinho(a).

Atendo de forma presencial em Caxias do Sul e online (em português) para quem está no Brasil ou no exterior, com uma escuta que respeita o seu momento, sem “pressa para superar”, permitindo a conexão com o que você está sentindo.

 

 *Psicóloga CRP 07/15.556 (Universidade de Caxias do Sul),Psicanalista (Instituição Psicanalítica Constructo), Associado EfetivoInstituição Psicanalítica Constructo, Especialista em Psicologia Clínica –Abordagem Psicanalítica do Sujeito Contemporâneo (Universidade de Caxias doSul), Formação em Psicologia Intercultural na Prática Clínica para Brasileirosno Exterior (FaCiência – Psi Terapia no Exterior). Autora do capítuloIsolamento social e solidão no processo migratório em Mentes Imigrantes.

WhatsApp:+55 54 999 32 18 54 -  wa.link/3u92yq


Artigo publicado originalmente em https://www.angelapsi.com.br/post/luto-aceitacao-e-enfrentamento-um-processo-que-merece-tempo-e-escuta



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