Entre Laços & Ausências
Morar fora e sentir culpa: é possível viver sem esse peso?
A culpa do imigrante
Morar fora e sentir culpa: é possível viver sem esse peso?
Angela Mazzotti Mestriner
Psicanalista – Psicóloga Intercultural*
A culpa é um sentimento muito comum a todos nós, em diferentes momentos da vida. Segundo Freud, os sentimentos de culpa podem aparecer sob a forma de autorrecriminações, autoacusações, autodepreciação ou tendência a punir-se, externalizando um conflito interno do aparelho psíquico.
Nos contextos migratórios ela toma alguns contornos bem específicos. Muitas vezes ela está relacionada a uma separação que não foi totalmente elaborada. É imprescindível levar em conta que cada sujeito vai ter uma reação às questões migratórias, tendo por base a sua história de vida e, consequentemente, tendo sentimentos singulares.
A qualidade dos vínculos e das relações antes da migração fará toda a diferença: relações sólidas e afetuosas costumam gerar mais apoio e menos culpa, ajudando a pessoa a sustentar o novo momento de vida, com todos os desafios que se colocam. Já os vínculos conflituosos, pelo contrário, amplificam o peso da culpa.
Há uma relação estreita do luto da separação com o sentimento de culpa. A mudança é vivida não como uma escolha legítima, mas como um abandono aos que ficaram. Há um luto presente do filho, amigo ou parente pro parte da pessoa que fez uma escolha de iniciar uma nova vida, “deixando” os outros para trás.
Algumas culpas mais comuns são:
- a culpa de ter ido embora enquanto os outros ficaram;
- a culpa pelo sucesso financeiro (“eu me dei bem e eles não”);
- a culpa do abandono (não estar presente nos momentos difíceis nem nos felizes);
- a culpa de se sentir melhor longe de casa, como se fosse ingratidão.
Muitas vezes essa culpa vira uma espécie de dívida simbólica: a pessoa sente que precisa mandar dinheiro, dar presentes caros, compensar a ausência de alguma forma. Vira o “banqueiro emocional” da família. Cria-se um curto circuito: o sujeito “paga” pela culpa por meio dessas remessas, mas sente que a distância emocional continua e não se ameniza, o que gera frustração, raiva e mais culpa pela raiva.
É comum haver uma ideia, bastante distorcida, diga-se de passagem, de que “se eu não tivesse migrado, estaria sempre perto”. No dia a dia isso nem sempre é verdade – mesmo quem mora na mesma cidade tem longas rotinas de trabalho, demandas da vida pessoal e desejos que nem sempre coincidem, de forma que os contatos nem sempre são tantos como ficam na imaginação de quem não está. Quem está longe idealiza a proximidade; quem está perto muitas vezes adia o contato “para amanhã”.
Aqui entra um ponto fundamental: o vínculo é simbólico, não geográfico. A distância física dói, sim. Não poder dar um abraço ou tomar um café junto causa sofrimento. Mas redimensionar como realmente seria a relação se você tivesse ficado no mesmo país é um ato de respeito consigo mesmo.
Curiosamente, muita gente acaba se comunicando mais depois de migrar do que quando morava perto. A tecnologia trouxe inúmeras possibilidades para essa presença, mesmo em ausência, mas o que realmente transforma é reeditar o contato de forma significativa: uma mensagem carinhosa, uma foto que o outro vai gostar, uma videochamada sem pressão.
A culpa é um sinal de que este amor pelos que ficaram continua existindo. Reelaborando isso, criando momentos de presença, saindo de uma posição de salvador dessa família e podendo se permitir entender as próprias razões para migrar, se ver como um indivíduo com direito de escolha, transforma-se a ausência em saudade e não em culpa. Os momentos de contato não serão por uma obrigação e sim por um desejo genuíno de estar com o outro desta nova forma.
O apoio da família na decisão de migrar faz toda a diferença, assim como a migração vir como uma escolha ou uma rota de fuga. Os sentimentos pré-existentes vão se amplificar, sendo eles de apoio e amorosos ou conflituosos. Geralmente, se havia amor, ele cresce; se havia conflito, ele se intensifica.
Em situações de conflitos e cobranças é comum que os contatos sejam espaçados e até esvaziados, com um sentimento de que não há o que compartilhar. Se o sentimento é de incompreensão para o fato que a migração carrega consigo também os desafios, as conversas se tornam evasivas e o afastamento inevitável. Afastamento esse que também pode gerar culpa.
Na relação com irmãos, por exemplo, é comum ver a rivalidade fraterna atualizada e até exagerada. Os “coloridos” que a relação já tinha (mais apoio ou mais competição) ficam mais fortes.
Olhar para tudo isso é importante porque a culpa não elaborada costuma aparecer de formas indiretas: boicote inconsciente ao próprio sucesso, paralisia na adaptação, crises depressivas, dificuldade de permitir-se ser feliz enquanto “os outros não estão bem”. Não é raro observar, como forma de pagar esta dívida simbólica, um retrocesso de fatores que já estavam funcionando.
Elaborar o luto dos próprios limites é libertador. O luto da onipotência infantil (eu posso tudo). Entender que não será possível proporcionar as mesmas coisas que eu tenho para todos os meus familiares, que não poderei trazer eles comigo (inclusive reconhecer que em muitos casos não há um desejo das pessoas de seguirem esse mesmo caminho). Aceitar os limites reais da própria vida, a compreensão de que assim como você, cada um dos seus entes queridos também é responsável pelas próprias escolhas – inclusive os que ficaram.
O grande movimento de transformação acontece quando se reconhece que amar a família não significa se anular. É possível amar os outros e a si mesmo ao mesmo tempo.
Reconhecer quando e no que se quer ajudar, a quem se quer ajudar – sair da lógica da dívida e da fantasia de que estando no Brasil tudo seria diferente – abre-se espaço para a saudade existir sem culpa. Relembrar as suas razões para imigrar e estar em paz com as próprias escolhas, fazem parte deste caminho.
A culpa não some da noite para o dia. Ela amadurece. Deixa de ser uma pressão constante e vira um lembrete carinhoso de que você continua ligado e amando quem ficou, mesmo que o seu caminho tenha sido diferente.
A vida no exterior nos desafia constantemente a redefinir nossos papéis. Qual é a culpa que você precisa ressignificar hoje? Se este texto ressoou em você, compartilhe com outro imigrante que possa estar precisando dessa leitura ou entre em contato para continuarmos essa conversa.
*Psicóloga CRP 07/15.556 (Universidade de Caxias do Sul), Psicanalista (Instituição PsicanalíticaConstructo), Associado Efetivo Instituição Psicanalítica Constructo,Especialista em Psicologia Clínica – Abordagem Psicanalítica do SujeitoContemporâneo (Universidade de Caxias do Sul), Formação em PsicologiaIntercultural na Prática Clínica para Brasileiros no Exterior (FaCiência – PsiTerapia no Exterior). Autora do capítulo Isolamento social e solidão noprocesso migratório em Mentes Imigrantes.
WhatsApp: +55 54 999 32 18 54 - wa.link/3u92yq
Artigo publicado originalmente no blog: https://www.angelapsi.com.br/post/morar-fora-e-sentir-culpa-e-possivel-viver-sem-esse-peso



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