Identidade & Pertencimento por Margery Adesina Pimentel
"Afinal, de onde eu sou?"
Mudar de país também pode mudar a forma como nos percebemos, como somos percebidos e como construímos nosso sentimento de pertencimento.
Tem uma pergunta que me acompanha desde que saí do Brasil e que, até hoje, não tem uma resposta certa: "Afinal, de onde eu sou?"
Depois de dez anos morando no Canadá e mais um ano nos Estados Unidos, atualmente na Flórida, aprendi que essa pergunta muda dependendo de quem pergunta, da língua em que ela é feita e do momento da vida em que estou tentando responder.
Sou Margery Pimentel, mulher negra, brasileira e imigrante. Sou psicóloga formada no Brasil e psicoterapeuta registrada no Canadá. Trabalho na área da saúde mental há quase duas décadas e, desde que saí do Brasil, minha prática foi se aproximando cada vez mais do que a migração faz por dentro. Atualmente, também estou em processo de licenciamento nos Estados Unidos e atendo em português e em inglês.
Boa parte da minha prática profissional se desenvolveu junto com a minha própria experiência de morar fora. Não foi por acaso que me especializei em Psicologia Intercultural e Clínica Racial. Foi vivendo em outros países que percebi como identidade, pertencimento e saúde mental estão muito mais relacionados do que eu havia aprendido na graduação.
Mudar de país não é apenas aprender outra língua, adaptar-se a uma rotina diferente ou entender como as coisas funcionam no novo lugar. Também envolve perceber que algumas características que faziam parte da nossa vida sem exigir grandes explicações passam a ser interpretadas de outras maneiras. O sotaque pode interferir na forma como nossa competência é percebida. A cor da pele pode ganhar outros significados. Nossos modos de falar, cuidar, trabalhar, educar os filhos e construir relações podem não ser compreendidos da mesma maneira em todos os lugares.
Com o tempo, a gente também começa a se perguntar quem era antes, quem consegue ser naquele lugar e quem as outras pessoas imaginam que a gente seja. Essas questões nem sempre aparecem de forma direta. Às vezes, surgem como ansiedade, solidão, sensação de inadequação, dificuldade para criar vínculos ou um cansaço que a pessoa não consegue explicar muito bem.
Na clínica, aprendi a não reduzir todo sofrimento vivido por uma pessoa imigrante a uma dificuldade de adaptação. Ansiedade e insegurança não surgem apenas de pensamentos individuais ou de experiências da infância. O ambiente também participa. A maneira como alguém é recebido, reconhecido ou constantemente questionado pode afetar profundamente sua relação consigo mesmo e com o lugar onde vive.
Esta coluna nasce do encontro entre a minha história pessoal, a prática clínica e os estudos que venho desenvolvendo ao longo dos anos. Nos próximos textos, quero falar sobre o que acontece quando a gente muda de país e, muitas vezes sem perceber, começa a questionar quem é. Quero falar sobre uma saudade que não é apenas de pessoas ou lugares, mas também de um jeito de existir que fazia sentido em determinado contexto e que, no novo país, precisa encontrar outras formas.
Vamos conversar sobre identidade racial, sotaque, solidão, relações familiares, diferenças entre gerações, microagressões, reconstrução de vínculos e as várias maneiras de criar pertencimento. Também quero pensar sobre o que realmente pode ajudar quem vive fora do seu país, seja há poucos meses ou há muitos anos.
Não tenho a intenção de oferecer respostas prontas. A experiência migratória é ampla demais para caber em uma única explicação, e cada pessoa carrega sua própria versão dessa história. Mudar de país pode ampliar possibilidades e também trazer perdas. Pode oferecer liberdade e produzir insegurança. Muitas vezes, experiências aparentemente contraditórias convivem dentro da mesma pessoa.
Neste espaço, quero usar a psicologia como uma ferramenta para pensar essas experiências, sem deixar de lado a honestidade de quem viveu, e ainda vive, boa parte do que vai escrever aqui. Talvez eu nunca responda à pergunta “de onde eu sou?” da mesma maneira todas as vezes. Mas foi tentando respondê-la que comecei a compreender melhor tudo aquilo que participa da construção da nossa identidade e do nosso sentimento de pertencimento.
A gente se lê em breve.
Take care,



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